DICAS DE SAÚDE

COVID-19 pode afetar os testículos e a qualidade do espermatozoide



11/09/2021


Entre as diferentes consequências que o coronavírus pode acarretar ao organismo humano, tem chamado a atenção o impacto do vírus na fertilidade de pessoas com testículos. Foi o que revelou um estudo conduzido por cientistas da Universidade de São Paulo (USP). Conforme mostrou a pesquisa divulgada no início de setembro, o vírus se aloja nos testículos e pode diminuir a qualidade dos espermatozoides. Entenda:

Isso acontece porque tem se descoberto com o avanço dos estudos que o coronavírus (SARS-CoV-2) consegue se alojar pelas mais variadas partes do corpo.

Uma das regiões que o coronavírus encontra condições de se proliferar é, justamente, os testículos, uma vez que o órgão reprodutor apresenta altos níveis de células ECA2 (receptor-chave para a internalização do coronavírus em nosso corpo).

De acordo com Fernando Leão, urologista e Cirurgião Robótico do Hospital Israelita Albert Einstein, ao se alojar nos testículos, o coronavírus provoca microtrombos que geram isquemia e lesões das células testiculares - principalmente as produtoras de espermatozoides e as células produtoras de hormônio.

"Esse estudo mostra uma queda na questão da motilidade (movimentação espontânea) de espermatozoides, que está ligada à fertilidade. Houve uma redução em torno de 40% a 50% do valor mínimo considerado normal. Em relação aos níveis séricos de testosterona, esses valores tiveram diminuição de 50% a 80% sobre os considerados normais. São interferências importantíssimas da COVID-19 em relação à função testicular", diz Leão.

O médico ainda aponta que a redução na movimentação dos espermatozoides é o que mais chama atenção no estudo: "A motilidade dos espermatozoides, que aparentemente foi a alteração mais comumente encontrada, é a capacidade deles se locomoverem de uma maneira rápida e reta para que atinjam o seu objetivo, que é a fecundação. Então, essa alteração na motilidade é a mais importante decorrente da contaminação testicular pela COVID-19."

Quando se fala em uma infecção viral que atinge os testículos, facilmente vem à cabeça a caxumba e o inchaço escrotal causado pela doença. No caso da COVID-19, o processo é bem diferente.

Isso porque o coronavírus não é um vírus que gera esse tipo de sintoma. "Ao contrário da caxumba, em que recomendamos repouso ao paciente para que não haja uma propagação desse vírus a nível sistêmico, não é de conhecimento de que a COVID-19 necessite disso [como prevenção para o coronavírus se instalar nos testículos]. É uma preferência do vírus se dirigir para certas regiões do organismo e o testículo é uma delas", explica Leão.

Como enfatiza o urologista, o trabalho desenvolvido pelos cientistas da USP traz uma importante contribuição para a avaliação de pacientes que foram acometidos pela COVID-19 - desde os casos assintomáticos, até os graves. A partir do histórico do paciente, é possível fazer exames que avaliam como está a fertilidade do paciente - como o espermograma.

"Se a pessoa tiver uma alteração de fertilidade, seria interessante repetir essa avaliação respeitando o ciclo da espermatogênese (produção de espermatozoide) - esse ciclo em média, vai de 80 a 90 dias. Na presença de uma alteração de fertilidade, principalmente motilidade, uma alteração que sugere contaminação pelo coronavírus, vale repetir o exame com, pelo menos, o intervalo de 80 a 90 dias para que se tenha certeza realmente de que esse paciente tem alguma alteração na sua fertilidade e tentar correlacionar com a COVID-19."

Para avaliar a queda dos níveis de testosterona, vale realizar exames no paciente e observá-lo no mesmo sentido que os exames referentes ao espermatozoide.

Pessoas com testículos precisam ficar atentas em situação de contaminação pelo coronavírus no que diz respeito ao tratamento recebido. "Mesmo no paciente assintomático, o adequado é fazer uma prevenção contra embolia para prevenir uma possível alteração da função testicular decorrente da contaminação da COVID-19", aponta o urologista.

Ele ainda alerta que a reposição de testosterona de forma direta não é recomendada em um primeiro momento. "Sabemos que a reposição de testosterona, de uma forma simples e direta, em pacientes muitos jovens, causa um quadro de atrofia do testículo. Em médio prazo, o que seria uma ajuda para o paciente em uma fase inicial, pode se transformar em um transtorno enorme", indica o médico. Como alternativa, o indicado é a administração de medicamentos que induzem o corpo a produzir, naturalmente, o hormônio.




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